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Conhecimento financeiro dos jovens tem espaço para ser ampliado no Brasil

21 de julho de 2017 - por Ação Jovem sem comentários

  • O PISA (Program of International Students Assessment) é uma avaliação internacional do aprendizado dos jovens conduzida a cada três anos pela OCDE1. Em sua última edição, realizada em 2015, o exame também avaliou o conhecimento de finanças dos estudantes de 15 anos de diversos países. Nesse contexto, buscou entender como o desempenho dos jovens na disciplina estaria associado ao seu contato com serviços financeiros e ao desenvolvimento do mercado financeiro de cada país. Os estudantes brasileiros apresentaram a pior nota relativa à temática financeira dentre os países pesquisados, com 393 pontos. Desempenho semelhante foi observado entre estudantes do Peru, enquanto a nota média de estudantes da China chegou a 566. A nota média dos estudantes brasileiros, contudo, deve ser analisada sob a perspectiva de que essa parte da pesquisa foi aplicada apenas a um grupo limitado de países, com significativo foco nos mais desenvolvidos.

    Dada a relevância dos conhecimentos financeiros para que os indivíduos consigam planejar melhor sua vida, é importante entender quais fatores estariam associados ao desempenho dos estudantes em cada país. No gráfico 2, percebe-se que a renda é um fator relevante para o desempenho dos alunos em todos os países: existe uma diferença de ao menos 40 pontos na nota média dos alunos do 1º e do 4º quartil de renda familiar em cada caso. No Brasil, o primeiro quartil de renda (equivalente aos 25% mais pobres da população) teve nota média de 364, enquanto o quarto quartil (dos 25% mais ricos) teve nota média de 441.

    Além disso, o desempenho do conhecimento de conceitos financeiros está positivamente relacionado com a nota obtida por cada aluno nas demais disciplinas, considerando apenas o caso dos estudantes brasileiros. Essa associação é ligeiramente mais forte com a nota obtida em ciências.

    Entretanto, percebe-se pela tabela 2 que a correlação entre as notas obtidas em ciências e leitura, ciências e matemática, e matemática e leitura são ainda mais fortes do que as correlações das notas nessas disciplinas com a obtida em finanças. Isso indica que o conhecimento financeiro parece ser menos correlacionado com as demais disciplinas do que o aprendizado simultâneo dessas disciplinas. Tal resultado pode ser um indicativo de que o conhecimento sobre finanças não é necessariamente adquirido no contexto escolar, e existem fatores adicionais que o influenciam.

    A relação positiva entre o conhecimento financeiro e a renda média dos alunos é reforçada pelo gráfico 3. Percebe-se que a correlação entre o PIB per capita e a nota obtida no PISA nesse tema específico é fortemente positiva. O Brasil se encontra bastante abaixo da reta traçada, o que significa que para o nível atual de PIB per capita, considerando a relação média verificada em outros países, a nota dos alunos brasileiros deveria ser bem mais elevada. (algo como 40 pontos a mais).2

    Já a desigualdade apresenta uma relação negativa com o desempenho médio em finanças dos jovens em diversos países. O Brasil se destaca por sua elevada desigualdade e também pelo fato que a nota média verificada no País está bem abaixo da sugerida pela relação média dessas duas variáveis em outros países (pouco mais de 410).

    Por fim, duas medidas de acesso aos serviços bancários se associam positivamente com o conhecimento dos jovens de conceitos financeiros. Por um lado, nos países em que o percentual de jovens de 15 a 24 anos com conta em banco é mais elevado, a nota obtida no PISA também é maior (gráfico 5). O Brasil parece ser uma exceção a essa regra, ao apresentar nota muito mais baixa que a esperada pela reta que captura a relação média entre essas variáveis. O Brasil também é um ponto fora da curva quando se verifica a relação entre o percentual de pessoas de 25 a 64 anos com conta em banco e a nota no PISA sobre conhecimentos financeiros (gráfico 6). A análise dessa relação faz sentido justamente porque se a geração anterior é mais bancarizada, maior a chance que os jovens tenham contato com os conceitos de finanças. A despeito da relação positiva observada na média para os demais países investigados, a nota no caso brasileiro é bastante inferior à sugerida pela reta.

    Em suma, a avaliação feita pelo PISA em relação aos conhecimentos financeiros dos jovens mostrou que existe espaço significativo no caso brasileiro para ações concretas de educação financeira. Isso porque os alunos brasileiros apresentam baixo desempenho, especialmente se comparados aos alunos de outros países para os quais a prova foi aplicada.  Destaca-se, entretanto, que o PISA é aplicado em geral em países mais avançados, e o Brasil possivelmente poderia ter resultados melhores que locais menos desenvolvidos tais como alguns países africanos, nos quais outros indicadores tais como os anos médios de estudo sinalizam que o sistema educacional é menos avançado que o brasileiro.

    Em relação aos conhecimentos de finanças, a escola acaba tendo um papel apenas parcial nessa tarefa, já que o currículo oficial não inclui tópicos sobre o tema no caso do Brasil. O relatório do PISA destacou, entretanto, que existem iniciativas e testes em curso no País para incluir tópicos de finanças no currículo da educação básica. Em 2005, a OCDE divulgou uma recomendação para que a educação financeira fosse incluída no currículo escolar. O relatório do PISA de 2015 identifica quais iniciativas já estão sendo adotadas em cada país estudado. Dentre os que já adotaram uma política nacional, destacam-se Eslováquia, Peru, Holanda, Lituânia e Bélgica. Enquanto tal movimento não toma corpo de fato no Brasil, acabam sendo mais relevantes para o conhecimento de finanças a renda familiar e as experiências vividas pelos jovens relacionadas a decisões financeiras. Dentre essas, destacam-se o recebimento de mesada, a necessidade de trabalhar e a necessidade de tomar decisões de alocação de recursos escassos, como apontado pelo relatório do PISA.

    A geração mais jovem tem acesso à informação por diversas fontes, especialmente a internet. Assim, uma alternativa a se considerar para avançar na formação de jovens mais preparados para lidar com finanças no futuro pode ser a realização de campanhas virtuais para a conscientização sobre o tema, com linguagem ágil. A capacidade de gerenciar recursos financeiros, se planejar, lidar com fenômenos inesperados e poupar é essencial para que os agentes econômicos possam interagir de maneira mais simplificada com os diversos instrumentos financeiros.

    Fonte: Economiaemdia.com.br / DEPEC Bradesco

     

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