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[Artigo] “Os ursos e touros do mercado brasileiro”, por Richard Rytenband

25 de março de 2015 - por Ação Jovem sem comentários

  • bull ws

    Prodígio em sua área, com apenas 6 anos, nosso articulista Richard Rytenband já lidava com touros e ursos. Para quem entende do mercado financeiro, touros (bulls) e ursos (bears) são figuras usadas para se falar sobre tendências de alta e baixa, respectivamente. Nesse artigo ele conta um pouco sobre os ciclos de mercado bull e bear do qual fez parte.

    “Os ursos e touros do mercado brasileiro”, por Richard Rytenband

    Bull e Bear, o touro e o urso, são há séculos considerados símbolos do bom e do mau andamento do mercado de ações. Os dois termos descrevem movimentos ascendentes ou descendentes de períodos econômicos históricos.

    Vivemos atualmente um dos momentos de maior pessimismo da economia brasileira, um período de Bear Market secular, mas não se desespere que ele pode estar bem próximo do fim.

    Grandes bulls e bears não são novidade na minha vida. Abaixo faço um relato da minha experiência pessoal que começou em 1987, quando tinha 6 anos e todos os grandes bulls e bears que vivi.

     1) Grande Bear de 1986 a 1991

    Anatomia:

    Durou de 28/04/1986 a 15/01/1991 (1723 dias)

    Ibovespa indexado em dólar apresentou queda de 91,03% no período (considerando da máxima a mínima).

    Este foi o primeiro grande ciclo que senti na pele. Em 1987 comecei a anotar cotações para o meu pai através do informe econômico da antiga TV Manchete. Como todo dia os preços das ações só caiam eu até cheguei a questionar meu pai se neste “jogo” os preços deveriam zerar até o final do ano e ai começar de novo.

    Entre 1988 e 1989 os preços até se recuperaram um pouco, mas a queda prosseguiu implacavelmente até 1991.

    Dessa época me lembro do congelamento de preços, produtos em falta no supermercado, empresários sendo presos, o país declarando moratória, e por fim o confisco do Plano Collor.

    Nunca vou esquecer das pessoas vendendo dólares em papel moeda para simplesmente honrar pequenos compromissos do dia a dia.

     2) O grande Bull de 1991 a 1997:

    Anatomia:

    Durou de 15/01/1991 a 10/07/1997 (2368 dias)

    Valorização do Ibovespa indexado ao dólar no período foi de 3415,44% (considerando da mínima a máxima).

    Quem imaginaria que no meio daquele pessimismo, e até mesmo de um processo de impeachment do presidente Collor estava nascendo um grande bull? Pois é os estrangeiros imaginaram e ganharam!

    Com o chamado ANEXO IV, um marco no mercado financeiro brasileiro, ocorreu finalmente a liberalização do mercado aos estrangeiros. Este sem dúvida nenhuma foi o maior divisor de águas da nossa história!

    Foi durante este grande bull que comprei a minha primeira ação aos 13 anos com o dinheiro do meu Bar mitzvá. Mas eu tive o dom de escolher a ação de uma empresa que se tornaria concordatária e perder tudo em pleno mercado de alta (onde 99.9% das ações subiam).

    Mas a minha dor seria compartilhada por outros investidores que perderiam grande parte do seu dinheiro com a crise asiática ocorrida em 1997.

    3) Grande Bear de 1997-2002

    Anatomia:

    10/07/1997 a 16/10/2002 (1924 dias)

    Ibovespa indexado em dólar apresentou queda de 83,82% no período (considerando da máxima a mínima).

    Depois da experiência de perder tudo com minhas ações, me restava duas opções: desistir para sempre ou tentar novamente.

    Escolhi tentar, mas antes decidi me preparar melhor e estudar todo tipo de conteúdo que envolvia investimentos, economia, contabilidade, etc.

    Aos 17 anos, em 1998 já estava operando contratos derivativos na BM&F (índice futuro ibovespa), mas como tinha pouco capital e a margem mínima era elevada (os mini índices só foram surgir em 2004) o começo foi muito difícil.

    Mas com conhecimento e já calejado por crises, passei pela crise cambial brasileira em 1999, o estouro da bolha da internet em 2000, o racionamento de energia, Atentados de 11 de setembro e a Crise Argentina em 2001, e em 2002 pelo processo eleitoral brasileiro e os escândalos contábeis nos Estados Unidos (Enron e WorldCom).

    Foi um período complexo, volátil, mas muito rico em aprendizado e dinheiro.

    Mas já com ferramentas melhores, e entendendo bem os ciclos já estava preparado para o grande bull que viria.

    Uma das previsões que lembro dessa época era que 1 dólar bateria a R$ 8,00 no mínimo, e o C-Bond (título mais negociado na dívida externa da época) cairia para abaixo de 50% do valor de face.

    4) O Grande Bull de 2002 a 2008:

    Anatomia:

    16/10/2002 a 29/05/2008 (2052 dias)

    Valorização do Ibovespa indexado ao dólar no período foi de 2051% (considerando da mínima a máxima).

    Um fato marcante do início deste bull foi a guerra do Iraque! Lembro como se fosse hoje, os especialistas afirmando que com a guerra as ações caíram ainda mais, porém o que ocorreu foi justamente o contrário. Os índices de ações iniciaram uma longa trajetória de alta justamente com o início oficial da guerra.

    Com os avanços na tecnologia e comunicações, a cobertura e interação dos investidores foi potencializada.

    Alguns anos de alta foram suficiente para atrair toda uma nova geração de investidores e tornar o mercado cada vez mais eufórico.

    O final deste bull foi ainda mais eufórico que o de 1997, com jovens alavancando suas carteiras em mais de 7 vezes e ignorando qualquer notícia ruim.

    Por ironia o final deste movimento se deu com o país recebendo um Investment grade e a teoria que os mercados emergentes estavam descolados dos desenvolvidos, e portanto a crise americana não nos atingiria.

    5) Grande Bear de 2008 aos dias de hoje.

    Anatomia:

    29/05/2008 – ?   (até 17/03/2015 já seriam 2482 dias)

    Ibovespa indexado em dólar apresentou queda 71,98% em seu pior momento em 21/11/2008);

    O que alguns diziam ser uma “marolinha” atingiu em cheio o mundo, e a economia brasileira. As bolsas derreteram em tempo recorde, e quem estava alavancado além de perder tudo ficou devendo.

    Em 2009 ocorreu uma forte recuperação nos mercados, mas em seguida o grande bear foi retomado e dura até os dias de hoje.

    Desde a crise de 2008 ocorreu uma mudança de rumo na política econômica, com mais intervencionismo por parte do governo. Grande parte da duração deste bear se deve a isso, mas finalmente em 2015 já podemos ver uma capitulação por parte do governo, e com o novo ministro da Fazenda Joaquim Levy uma mudança no rumo.

    O que eu posso dizer é o que eu vi, não o que me contaram, mas grandes bulls nascem em meio a um extremo pessimismo, da mesma forma que os grandes bears nascem em meio a grandes euforias.

    Em todos os ciclos temos heróis e vilões. Gênios e burros.

    A partir da crise asiática tive o hábito de acompanhar mesmo que a distância o destino dos heróis e vilões; os gênios e burros. A internet ajudou muito nesta tarefa.

    É incrível como há uma troca de geração de ciclo para ciclo e esses personagens literalmente desaparece. Mesmo aqueles que pareciam invencíveis!

    Por isso não se impressione, não entra na manada, analise friamente os fatos, com a cabeça fria e foco.

    Nos vemos no próximo grande bull!

    Richard Rytencand

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