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[Entrevista]: Gustavo Cerbasi, educador financeiro

16 de março de 2015 - por Ação Jovem sem comentários

  • Gustavo Cerbasi

    O Ação Jovem traz para vocês uma entrevista exclusiva com o educador financeiro Gustavo Cerbasi, que acabou de lançar um livro muito completo sobre aposentadoria. De um jeito simples, direto e informativo, “Adeus, aposentadoria” (Editora Sextante) desmistifica os investimentos que muitos optam para garantir a sonhada aposentadoria confortável e apresenta uma nova fórmula para chegar a ela sem dor de cabeça e com boas lembranças dos momentos já vividos. Confira:

     

    1) Você abre seu livro falando que a atual fórmula de previdência está errada porque não atende mais à realidade da população brasileira. Estamos consumindo mais, poupando menos e sofrendo com a pressão inflacionária. Existe uma fórmula ideal ou varia de pessoa para pessoa? 

    A fórmula ideal depende muito de como a pessoa está construindo as bases – não só financeiras – de seu futuro. Quem hoje cuida de sua saúde e qualidade de vida e se vê trabalhando com prazer e realização até os 85 anos de idade não precisa se preocupar excessivamente com a aposentadoria. Talvez uma combinação de contribuições mínimas para o INSS mais um complemento de 8 a 10% de sua renda para a previdência privada sejam suficientes. Já quem faz planos para se aposentar cedo, entre 60 e 65 anos de idade (talvez tenha pressa nos planos em função da falta de realização no trabalho e falta de qualidade de vida) precisará de estratégias adicionais para não passar dificuldades. Por desejar se aposentar cedo, é razoável supor que as reservas formadas serão insuficientes para a pessoa viver de renda. Mas, se a essas reservas acrescentarmos um projeto empreendedor ou uma nova carreira, podemos transformar as reservas no investimento inicial da fase mais prazerosa e rentável da carreira. Ao trabalhar por conta ou montar um negócio próprio, temos o elemento necessário para dar conta dos gastos crescentes na terceira idade: a renda também crescente, se essa fase for levada a sério e com equilíbrio.

     

    2) Quais as variáveis a se observar na hora de planejar a aposentadoria (renda disponível ou renda bruta / idade/ dependentes etc..)?

    O mais importante é fazer as contas e avaliar quanto deve ser poupado por mês para que os grandes objetivos na vida sejam alcançados – não só a aposentadoria, mas também grandes celebrações e conquistas pessoais. A aposentadoria não deve ser consequência da vida que levamos. É a vida que escolhemos ter que deve ser consequência de nossos planos. Depois de definir o quanto poupar para a aposentadoria, o segundo passo é definir uma verba para garantirmos nossa qualidade de vida. Ela será gasta com lazer, cuidados pessoais, cultura e educação. Essa verba é importante, pois esses itens de consumo trazem a estabilidade emocional (ou motivação) necessária para sustentar a disciplina da poupança por muitos meses ou anos. É depois de definir o compromisso de poupança e a verba para a qualidade de vida que avaliamos, com os recursos que sobram, quanto podemos gastar com casa, carro, plano de saúde e similares. O resultado será uma vida de padrão mais simples, porém mais interessante. É por isso que digo que uma vida mais simples é a receita para uma vida mais rica.

    3) Qual a idade ideal para se começar a investir?

    O estímulo ao investimento deve ser dado às crianças desde a primeira mesada, para virar hábito. O ideal é que todo trabalhador comece a investir parte de seus ganhos desde seu primeiro salário. Quanto mais cedo começamos, mais nos beneficiamos do efeito tempo na multiplicação de riquezas, e mais fácil fica o esforço para a acumulação.

     

    4) O jovem que ingressa na universidade e começa a trabalhar lida, no início, com recursos financeiros escassos e muitas tentações de consumo. Como incentivá-lo a poupar, pelo menos para um plano de previdência privada, como vocÊ recomenda no livro?

    Ele não deve ser estimulado a poupar, até porque poupar não é prazeroso. Jovens devem ser estimulados a sonhar, sonhar alto mesmo, fazendo contas do esforço necessário para alcançar seus planos ambiciosos. Quando jovens tiverem motivos mais estimulantes do que o prazer do consumo ou o conforto de fazer parte de uma tribo de grifes, serão motivados a poupar. A aposentadoria é consequência. Quem está acostumado a realizar sonhos de curto e médio prazos não terá nenhuma dificuldade para estabelecer a rotina para poupar para o longo prazo, como é o caso da aposentadoria.

     

    5) E como incentivar esse jovem a adotar um consumo de maior qualidade (com escolhas conscientes)? 

    Conversando mais com ele sobre dinheiro e sobre felicidade. Quem erra nas escolhas financeiras e de consumo o faz por não ter refletido bem sobre suas escolhas. Muitas vezes, por não saber onde encontrar informações, mas na maioria das vezes por não ter sido estimulado a refletir e organizar suas ideias. Quanto mais falamos sobre dinheiro, mais somos levados a refletir sobre as consequências de nossas escolhas, mais entendemos a lógica dos argumentos comerciais e menos suscetíveis estamos a cair na conversa de quem vende o que não queremos. Um debate maduro nos leva a dar mais valor à experiência do que à posse, e é fundamental que os jovens sejam estimulados a criar momentos marcantes em sua vida, no lugar de cobrir a superfície de seu corpo com marcas da moda.

     

    5) Carro é um desinvestimento pela rápida desvalorização e altos custos de manutenção. Você recomenda que as pessoas não comprem carro cedo (jovens)? 

    É difícil recomendar que alguém não compre algo que, muitas vezes, pode significar a condição de conciliar estudos com o primeiro emprego, ou o meio de se manter em contato com a família. Obviamente, pelo custo que gera, é melhor ficar sem o próprio automóvel o quanto for possível. Se parasse para fazer contas, o jovem perceberia facilmente o ganho financeiro ao se deslocar com transporte público e eventualmente táxi, e o ganho de saúde ao caminhar mais ou usar a bicicleta. Mas, quando o automóvel é mesmo necessário, e erro não está na decisão de compra-lo, mas sim em aceitar modelos caros que comprometem demais o orçamento, ou financiamentos longos, de mais de três anos, que encarecem demais a aquisição e inviabilizam a manutenção. Se você acredita que tem dinheiro suficiente para comprar um carro de R$ 30 mil, deveria comprar um de R$ 20 mil, mesmo que usado. Se acha que o usado vai dar problemas, então compre logo o de R$ 18 mil e guarde uma verba para o mecânico. Importante mesmo é não faltar dinheiro para aproveitar bem sua aquisição.

     

    6) Você fala em seu livro que duas variáveis importantes na hora de definir o quanto poupar (planejamento) são juros básicos e inflação. Mas, quando falamos de poupar para aposentadoria,  o prazo a se considerar é longo, décadas, e essas variáveis são voláteis.  Como contornar as oscilações de juros e inflação?  Com que periodicidade o planejamento têm de ser revisto?  

    Em primeiro lugar, as contas devem ser feitas já desconsiderando a inflação. Se seu investimento rende 9% ao ano e a inflação é de 6%, seu ganho real é de cerca de 3% e esse é o rendimento que deve ser usado ao fazer os cálculos. Nos simuladores que disponibilizo em meu site, no http://www.maisdinheiro.com.br/simuladores, os usuários já são orientados a fazer contas descontando o efeito inflacionário. E, como os juros normalmente são influenciados pela inflação, fazer as contas com rendimentos líquidos já elimina os efeitos de volatilidade nas duas variáveis.

     

    7) Muitos veem no valor de 1 milhão de reais uma meta ideal para se alcançar e declarar a independência financeira. O que você acha desse valor? Já está ultrapassado (dado inflação, corrosão do poder de compra)?  

    Realmente, já houve tempo em que 1 milhão de reais era sinônimo de independência financeira. Hoje, essa reflexão só vale para cálculos em dólar. 1 milhão de reais, aplicados na segurança da renda fixa, gerará uma renda perpétua de pouco mais de R$ 3 mil mensais – que, convenhamos, não é uma renda razoável para alguém se considerar independente. Porém, não diminuo a importância do objetivo de alcançar essa marca, pois é um número extremamente simbólico. Romper a casa dos sete dígitos é como um avião romper a barreira do som: a emoção é grande quando o fato ocorre, mas instantes depois percebemos que nada mudou. E vale a pena lutar por esse número, pois a lógica dos ganhos sobre ganhos e as oportunidades que se abrem para investidores qualificados provam que o primeiro milhão é o mais difícil de ser alcançado. Os outros vêm, em grande parte, da multiplicação do primeiro.

     

    8) Qual o erro mais comum que as pessoas cometem quando o assunto é aposentadoria?

    Há três grandes erros sendo cometidos pela maioria das pessoas quando se trata de aposentadoria. Primeiro, deixam para se preocupar com isso tarde demais, pois quanto antes começamos, menor é o sacrifício. Segundo, o comportamento geral é acreditarmos que iremos nos aposentar mais cedo do que nossos planos realmente permitem. Com isso, nosso próprio planejamento de carreira estabelece um ponto final precoce, e quando percebemos que precisamos trabalhar por mais algum tempo estamos muito defasados em relação ao mercado. E, finalmente, a regra geral é as pessoas se imaginarem sem trabalho após a aposentadoria. Deixam de se preparar para uma necessária fase empreendedora, e depois se arrependem. O brasileiro esforça-se pouco em termos de poupança, não faz planos para empreender e ainda conta demais com a ajuda do governo e da família. Geralmente, são os filhos que dão suporte à falta de planejamento de seus pais. Com isso, sentem dificuldades de planejar sua própria aposentadoria, criando um círculo vicioso geração após geração.

     

    9) Das 20 soluções atuais que não solucionam o problema da aposentadoria por completo, as quais você elenca no livro, qual você acha mais enganadora ou menos eficaz?

    A que a pessoa acredita mais. Nenhuma estratégia, isoladamente, é eficiente. O que eu proponho em Adeus, Aposentadoria é que a pessoa reúna diversas estratégias e as costure em um plano inteligente e motivante, que garante o futuro que que seja preciso abrir mão de aproveitamento e bem estar no presente.

     

    10) Há quem defenda que é normal no Brasil as pessoas ainda não pouparem porque só recentemente o brasileiro vive em estabilidade econômica (especialmente inflação controlada e aumento da renda) Você acredita nisso ou acha que é apenas uma desculpa?

    Isso é mito. Nos tempos de inflação elevada (melhor seria dizer descontrolada), a estratégia de defesa que o consumidor tinha era comprar coisas antes que os preços aumentassem. Houve quem foi mais perspicaz e comprou terrenos imóveis, bens para serem renegociados com preço mais alto. E houve quem lamentou e passou duas décadas fazendo estoques de alimentos. Nós não temos o hábito da poupança por outros fatores. Primeiro, porque mais de 9 em cada 10 brasileiros vêm de famílias pobres, em que o dinheiro mal dá para a subsistência. Segundo, porque não aprendemos a admirar os ricos e tê-los como exemplos, mas sim invejá-los e tê-los como doadores ou padrinhos. Isso fez com que muitos bons exemplos preferissem ocultar seu sucesso a passar sua fórmula adiante. E temos também a tradicional prática do curral eleitoral, em que a ignorância e a pobreza perpetuam os incompetentes e corruptos no poder. Enquanto isso não mudar, continuaremos a ser um país pobre e sem poupança.

     

    11) Discute-se hoje a mudança da metodologia de cálculo da aposentadoria, dado o tamanho do rombo previdenciário (menos poupadores e mais beneficiários). O próprio ministro da Previdência Social, Carlos Gabas, considera o atual modelo ruim porque não eleva o ano de aposentadoria. Qual você acha que seria um modelo mais adequado à realidade brasileira? E como mudanças nesse fator podem afetar quem está prestes a se aposentar e quem está começando sua vida de trabalho (jovens)?

    Quando nasceu, o modelo previdenciário visava garantir algum conforto e dignidade àqueles que, na fase final de sua vida, não tinham como se manter pelo trabalho. Funcionava bem quando as pessoas tinham expectativa de vida de 65 anos e pensavam em parar de trabalhar aos 60. Hoje, a maioria ainda quer parar de trabalhar aos 60, mas faz planos para viver até os 90. É óbvio que a conta não vai fechar. Se quisermos trabalhar por 35 anos e viver de renda por outros 30, teremos que poupar cerca de metade dos ganhos na fase produtiva, e isso ninguém quer. Por isso, acho perfeitamente razoável que o INSS aumente a idade mínima para a aposentadoria, e deveria aumentar bem mais. Ou se faz isso, ou se reduz drasticamente o benefício, pois há menos pessoas contribuindo para uma massa crescente de aposentados que está vivendo cada vez mais. Um modelo mais adequado a qualquer realidade, não só a brasileira, seria o de conceder o benefício somente a partir de cinco anos antes da expectativa de vida média da população da região. Se no Sudeste do Brasil se espera viver até os 80 anos, a idade ideal para a aposentadoria deveria ser aos 75 anos. Parece tarde? Não seria, se todos cuidassem mais de sua qualidade de vida.

     

    12) O que te inquietou e motivou para escrever este livro?

    Escrevi meu primeiro livro em 2002, e desde então tenho colhido milhares de depoimentos emocionantes de pessoas que mudaram de vida, saindo da pobreza para os investimentos, começando seu primeiro negócio, salvando um casamento pelo diálogo. Convivi com universitários maravilhados com orientações que os guiavam para a prosperidade, recebi inúmeras manifestações públicas de admiração pela lógica de minhas ideias, fui contratado por todos os grandes bancos e instituições financeiras para falar de meus modelos. Não posso reclamar das conquistas que tive ao orientar para o planejamento. Porém, em todas as situações em que o tema era aposentadoria ou terceira idade, eu sentia como se houvessem pesadas nuvens sobre os ambientes em que esse tema era discutido. Argumentos alarmantes como “faça, ou irá se arrepender muito!”, ou expressões de pesar quando alguém reconhecia que era tarde para começar me levavam a crer que algo estava errado no modelo. Como tratar sobre o tema Aposentadoria, se ninguém se sente feliz ao cortar gastos na preparação para ela, todos se sentem ansiosos quando ela se aproxima e, incrível!, quase 100% dos aposentados se sentem frustrados com o resultado de 35 anos de planos? Se aposentar-se era o maior objetivo da vida de um profissional e as chances de realização ao alcançar esse objetivo eram baixas, estava claro o sinal de que estávamos perseguindo o objetivo errado. Em Adeus, Aposentadoria, viro essa história do avesso e torno o processo motivante e recompensador no antes, durante e depois.

    13) Qual sua estratégia de investimentos para a aposentadoria? 
    É justamente por não acreditar em aposentadoria que eu escrevi meu livro mais recente. Mas, para o senso comum, posso me considerar aposentado há muito tempo. Em 2005, fiquei conhecido por ter saído em capa de revista falando da minha independência financeira recém conquistada. Naquele ano, após algumas estratégias conscientes de risco que foram bem sucedidas, cheguei ao meu primeiro milhão de reais, que eram suficientes para gerar uma renda perpétua de cerca de R$ 3.800, meu custo de vida naquele ano. Eu podia parar de trabalhar, por isso me considero aposentado. Mas, foi a partir dessa conquista que eu passei a recusar trabalhos que não me interessavam, e me dediquei a fazer somente o que gostava. Meu trabalho cresceu, a ponto de eu ter demandas maiores do que posso atender. Equilibro essas demandas com períodos generosos de férias, nunca menores do que as férias escolares de meus filhos. Como meu patrimônio mantém a família, trabalho não para pagar contas, mas sim para aumentar meu patrimônio. Cada dia de trabalho significa uma pequena melhoria no meu padrão de vida perpétuo. E, para garantir isso, não assumo mais níveis altos de risco nos investimentos. Minha carteira é dividida em diversas fontes de renda: direitos autorais de livros que se vendem sozinhos, imóveis para aluguel, unidades de condo-hotel, ações pagadoras de dividendos, uma cesta de produtos diversos de renda fixa e um VGBL compõem minha carteira conservadora. E trabalho para que todos sigam esse exemplo, cuja maior recompensa não está nos bens que tenho, mas sim na paz em relação às escolhas que tenho em minha vida. O dinheiro, definitivamente, fica em segundo plano.

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