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Artigo: “O rabo abanando o cachorro”, por André Perfeito

15 de outubro de 2014 - por Ação Jovem sem comentários

  • O rabo abanando o cachorro

    O debate eleitoral chegou a tal ponto nas últimas semanas que a análise propriamente econômica perdeu um pouco de sentido. Do que vale esmiuçar dados de inflação se qualquer pesquisa eleitoral rege mais as expectativas e consequentemente os mercados financeiros? Seria sensato falar de variáveis reais e monetárias se o investidor mediano está apenas especulando hipóteses cada vez mais irrealistas do que virá a ser um possível governo de qualquer um dos dois postulantes ao Planalto?

    Tudo ficou muito movediço estas últimas semanas e eu fiz comentários apáticos uma vez que sinto enorme resistência na capacidade de interpretação geral. O clima de pânico é perigoso porque irá forçar Aécio e Armínio a serem mais austeros do que seria necessário e isso pode ser desastroso. Tenho certeza que a equipe econômica da oposição tem uma leitura mais realista da situação e que não irá fazer nada muito brusco, mas o que me chama atenção é o que o mercado acha que eles vão, ou deveriam, fazer.

    Não vou me alongar nesse tópico. Vou aqui reafirmar algo muito mais urgente e que estamos chamando atenção há tempos e que pode sim criar transtornos maiores que as névoas eleitorais. Se parte do mercado quer insistir que os “fundamentos” eleitorais brasileiros são mais relevantes que as condições de liquidez externa paciência. É como se achassem que o rabo abanasse o cachorro.

    O mundo está num período de disfunção monetária sem precedentes. Uma política keynesiana pela metade – onde só se sabe imprimir dinheiro e não gastar dinheiro – está entorpecendo a razão lá fora e os juros evidenciam tamanho delírio. Em termos reais a Europa patina e não sai do lugar. A Produção Industrial divulgada hoje é apenas mais uma prova da areia movediça em que o Velho Continente se meteu.

    A situação é estranhamente bizarra, mas prevista na literatura. A ampla liquidez jogou os juros para baixo (hoje o título de 2 anos alemão rende mais uma vez juros negativos, algo que ocorreu só quando a Europa ameaçava naufragar no caos fiscalista dos PIIGS), mas esse dinheiro abundante não criou as possibilidades do investimento andar.

    A diferença entre o título de 10 anos alemão e americano está num dos maiores patamares da história e sugere mais uma vez que o Euro deve se depreciar e os juros nos EUA continuarem a cair.

    Uma situação que nem esta sugere fuga para a liquidez por conta de um cenário adverso, mas esta fuga para a segurança dos treasuries é algo mais que o simples jogo conhecido. Me parece que os mercados estão pedindo, na verdade rogando (uma vez que os juros negativos na Alemanha mostram que é preferível perder um pouco, mas saber quanto) para que os EUA e a Alemanha tomem as rédeas do desenvolvimento e façam políticas fiscais expansionistas, afinal eles se financiam a zero.

    No entanto uma mistura de falta de personalidade política e de problemas táticos de curto prazo tanto de Obama quanto de Angela impedem que eles sejam os líderes que o capitalismo ocidental precisa para seguir avançando. Nesse meio tempo a China se ajusta ao crescimento mundial sem assumir ela mesmo o papel que “importador de última instância” que o mundo hoje precisa.

    Os mercado ficaram nesse impasse por mais algum tempo até que Obama faça algo mais claro. Se os EUA subirem os juros sem anunciar simultaneamente uma política fiscal expansionista será um desastre. Acreditávamos que poderíamos esperar até 2016 quando termos eleições nos EUA, mas não acho hoje que haja mais tempo.

    Por aqui ficaremos nesse jogo de sombras da eleição presidencial achando que há muito espaço para se fazer algo quando no fundo o mundo nunca foi tão pequeno.

    André Perfeito é economista-chefe da Gradual Investimentos.

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