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Artigo: “Nuvens no céu da economia global”, por Pedro Paulo Silveira

7 de outubro de 2014 - por Ação Jovem sem comentários

  • Hoje foram divulgados os dados da produção industrial de agosto na Alemanha e eles vieram muito ruins. A produção industrial de agosto caiu 4% contra uma alta de 1,6% em julho e as encomendas caíram outros 5,7%. A produção de bens de capital, principal indicador do investimento, derreteu 8,8% e a construção 2%. A menor queda, como seria de se esperar, foi a de bens de consumo, que recuaram 0,4%1. A queda da produção industrial decorre da contração das economias da Zona do Euro e da queda da confiança em função do conflito na Ucrânia.

    A intensa discussão eleitoral tem impedido que os brasileiros olhem, com um pouco mais de atenção, para os desequilíbrios globais e isso pode ser um problema mais à frente. Toda a responsabilidade acerca da forte desaceleração industrial brasileira tem sido jogada nos ombros da política econômica levada a cabo por Guido Mantega. Pouco se fala sobre a influência da crise externa por aqui, refletida na deterioração do déficit externo e na queda da produção industrial. Mas isso vai bater em nossa porta no dia seguinte em que a eleição for decidida. Afinal, como tenho repetido, é o cachorro que abana o rabo.Ontem o provável ministro da economia de Aécio Neves, o economista Armínio Fraga, explicitou duas coisas importantes: nem os aumentos de tarifas nem o ajuste fiscal serão feitos de forma abrupta; serão feitos cortes de despesas graduais, assim como o aumento de tarifas. A convergência às metas (de inflação e de superávit primário) será sinalizada para que sejam atingidas em alguns anos. Ele defende essa sinalização ao mercado como forma de evitar mais uma mudança em nossa nota de crédito (downgrade), o que tornaria a confiança no país ainda pior. Isso mostra que Armínio, como seria de se esperar, sabe que uma ação abrupta (como já defenderam alguns “paladinos dos ajustes”) colocaria a inflação em trajetória explosiva e o nível de atividades em derretimento. Vale lembrar que há fatores nos preços que são relacionados aos constrangimentos de oferta, decorrentes da forte seca que assola o Sudeste Centro Oeste, e que, da mesma forma, há fatores cíclicos atuando para a piora do superávit primário (a queda da arrecadação de impostos por conta da desaceleração da economia). Fazer os ajustes de forma “heroica”, sem levar em conta o estado da economia, seria de um amadorismo fenomenal. E é sobre isso que Olivier Blanchard, o economista do FMI, está falando ao liberar mais uma parte do relatório World Economic Outlook em, Washington. Um bom indicador da desaceleração global é a queda dos preços das commodities. Já citei aqui a queda do minério de ferro. Outra que está em forte queda é o petróleo, que caiu 18% desde junho.

    O mundo, exceto os EUA, está passando por um momento de desaceleração da economia, com reflexos diferentes em cada região do planeta. Como comentei de passagem, Christine Lagard, a diretora gerente do fundo, já havia levantado a questão sob a forma do nome “A Nova Mediocridade”. Os países estão com baixas taxas de crescimento, com queda em suas produções industriais, altas taxas de desemprego, pouco investimento em infraestrutura e cooperando muito pouco entre si. A diretora oferece uma política: fazer os ajustes fiscais de forma lenta e moderada (para evitar a queda ainda mais abrupta da demanda!), melhorar os gastos, investindo em educação e infraestrutura, e buscar a cooperação. Vale a pena assistir a palestra de Largarde, dada aos alunos da Georgetown University : http://www.imf.org/external/mmedia/view.aspx?vid=3817919392001 .[Se o mundo continuar insistindo em “consolidar” suas dívidas públicas – que explodiram para salvar o setor bancário na Grande Recessão – todos os esforços para a recuperação da economia global serão jogados no lixo. Curiosamente, a Comissão Europeia acabou de convocar a França a apertar ainda mais os cintos, em um novo esforço para a consolidação de sua dívida pública.

    A projeção do FMI para o crescimento global, adiantada hoje por Olivier Blanchard, recuou, mais uma vez: de 3,4% em julho para 3,3%. Para 2015 a projeção caiu de 4% para 3,8%. A política responsável por isso foi a da austeridade na União Europeia. O efeito colateral da política de estímulo monetário dos EUA é o forte crescimento das dívidas dos países emergentes (as dívidas privadas!), caracterizando, como tenho dito, uma mega bolha de crédito. Assim, como disse Lagarde, ainda que exista um céu azul por trás, ele está encobertos por nuvens muito cinzentas. E o novo governo estreará 2015 com esses desafios.

    (1) Independentemente dos fatores que levaram à queda, se cíclicos, se estruturais, uma coisa fica clara: o consumo oscila menos que o investimento. Para um estudante de primeiro ano de Economia essa é uma afirmação trivial. No entanto, todo o “consenso” sobre política econômica atual se baseia nos DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium), que consideram o Consumo como a variável mais importante, seja do lado da demanda, como do lado da poupança. O Investimento sequer entra como fator relevante para a política. No entanto, eles ainda insistem em chamar esse ‘modelo’ de keynesiano. Como já citei aqui, é como considerar o U2 um conjunto de Funk.

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