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Tamanho não é rendimento

10 de setembro de 2012 - por Ação Jovem sem comentários

  • Por Flavia Lima | De São Paulo
    Jornal Valor Econômico – 10 de setembro de 2012

    Cambuci, Metisa, Biomm. Provavelmente muitos investidores de bolsa nunca ouviram falar dessas companhias. Não é para menos. Enquanto uma gigante como Petrobras tem valor de mercado de R$ 280,2 bilhões, a pequenina Cambuci – fabricante de materiais esportivos e dona da marca Penalty – vale na bolsa pouco menos de R$ 65,8 milhões. A empresa de medicamentos Biomm, R$ 64,8 milhões, e a companhia de equipamentos agrícolas Metisa, cerca de R$ 230,4 milhões.

    Em comum, esses papéis têm valor de mercado e liquidez muito abaixo de ações listadas no índice de small caps, que, em tese, reúne as empresas consideradas pequenas. O valor médio de mercado das companhias do índice, contudo, é de R$ 2,5 bilhões. Por isso, as empresas bem menores são apelidadas de ‘micro caps': no geral têm valor de mercado de até R$ 300 milhões e volume médio diário negociado de até R$ 1 milhão.

    Não é raro, no entanto, encontrar alguns desses papéis movimentando cifras bem abaixo disso. As ações da empresa de vestuário Grazziotin, por exemplo, negociam por dia uma média de R$ 100 mil. Se o volume é pequeno, a rentabilidade pode surpreender. Em 12 meses, os papéis sobem 49% e, em um prazo mais longo (três anos), o ganho é de 132,9%.

    Cambuci movimenta ainda menos: em média R$ 8 mil por dia. Em 12 meses, o papel perde 40%, mas em três anos os ganhos encostam em 190%. É isso que faz com que alguns gestores olhem com cuidado para essas ações. O objetivo é encontrar valor onde, ao menos por ora, poucos conseguem enxergar, mantendo em carteira uma joia desprezada pelo mercado, mas que em algum momento vai se provar lucrativa. Nem que seja preciso segurar o papel por anos a fio.

    “É preciso muita paciência com esse tipo de papel porque pode levar tempo para o mercado perceber que a empresa tem potencial”, diz Manuel Caldeira, gestor com 33 anos de experiência. “E também não dá para virar torcedor do papel, tem que admitir que errou”, complementa ele, sócio da Iguana Investimentos, que tem um de seus fundos voltado para micro caps, como a Cambuci. “A empresa deve ser bastante beneficiada pelos Jogos Olímpicos e pela Copa aqui no Brasil. Não quero nem ver a hora que cair a ficha do mercado”, diz.

    No geral, esses gestores apostam em empresas com um potencial gigante de crescimento, que podem ser compradas por uma concorrente de maior peso. Ou ainda em companhias que podem anunciar uma recompra de ações, fechando seu capital. A ideia desses ‘heróis da persistência’ é repetir teses de investimento de sucesso, como Randon, por exemplo, que há alguns anos não recebia muita atenção do mercado e hoje vale R$ 2,4 bilhões na bolsa.

    Até chegar lá, no entanto, o papel é muitas vezes ignorado pelo mercado. Das nove micro caps citadas por gestores como atrativas (ver tabela acima), apenas duas são cobertas por casas de análise, o chamado ‘sell side’, de acordo com a “Bloomberg”: a Profarma, que é a mais negociada desse universo, e a Plascar.

    Um dos perigos disso é que a falta de cobertura e a pouca negociação do papel estão intimamente ligadas, desembocando em ausência de parâmetros e dificuldades para vender o ativo. “Seria bom poder comparar minhas avaliações com a de outros analistas para poder me balizar”, diz o sócio-gestor da Fides Asset Management, Roque Sut Ribeiro. Um dos fundos da Fides, o Total Return, tem hoje 50% do patrimônio em small e micro caps, como a Alfa Financeira.

    Como é preciso tempo para se desfazer das posições, a ideia é que o investidor tome risco se adiantando ao que pode acontecer, e não reagindo a fatos passados. “Quando este tipo de papel sobe não demora muito para sumirem os vendedores. E aí o negócio é esperar o próximo ciclo”, diz Fabio Alperowitch, sócio-fundador da Fama Investimentos, gestora que desde 2004 tem um fundo nesses moldes, o Future Value.

    A perseverança desses gestores ganha contornos desafiadores diante do cenário externo complicado. “Em julho, cerca de 100 mil pessoas operaram de fato na bolsa, basicamente voltadas para as blue chips”, diz Saulo Sabbá, diretor de tesouraria do Banco Máxima, que planeja um fundo de micro caps para breve. “Quanto pior o mercado, mais seletivo ele fica em relação à liquidez e acho que isso não deve melhorar no curto prazo.”

    Há mais ou menos 20 anos olhando para esses papéis, Alperowitch lembra que eles ao menos respondiam diante de bons resultados. De 2008 para cá, a cautela prevalece em relação a empresas tão pequenas e ilíquidas. “Hoje essas ações ficam paradas como em um (fundo de) private equity, além de reagir de forma mais nervosa a alguns fatos. E não basta um bom balanço para subirem, é preciso uma grande novidade.”

    A paciência, no entanto, pode ser recompensada. Alperowitch conta que comprou as ações da Metisa – que mantém em carteira até hoje – em 1994. De lá para cá, avalia que a companhia deve ter pago R$ 40 milhões em dividendos. “É por isso que olhamos com carinho para esses papéis.”

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