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Veja como a Bolsa de Valores da Coreia conquistou um grande número de investidores pessoa física

8 de agosto de 2012 - por Ação Jovem sem comentários

  • Matéria extraída do Jornal Valor Econômico
    Por Karin Sato

    Lições da Coreia

    Jake Kim, 39 anos, residente em Seul, capital da Coreia do Sul, é um investidor assíduo, com US$ 200 mil aplicados em ações, fundos e ETFs (Exchange Traded Funds), além de dois imóveis comerciais que aluga.

    Ele faz parte de um universo de cerca de 5 milhões de pessoas físicas que investem na bolsa de valores coreana. O número corresponde a quase 11% da população total ou 20% da parcela economicamente ativa e, coincidentemente, é a sonhada meta da BM&FBovespa, já prorrogada algumas vezes. Por aqui, existem aproximadamente 580 mil contas de custódia de pessoas físicas, o equivalente a 0,3% da população total. As corretoras calculam, porém, que apenas cerca de 130 mil ou 140 mil podem ser consideradas “ativas”, com operações pelo menos uma vez por mês.

    Na comparação anual, o pico de investidores individuais na bolsa brasileira foi atingido em 2010, com 610.915 aplicadores, o equivalente a 0,32% da população total, de acordo com levantamento do Valor Data com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vale citar também que a participação de pessoas físicas no volume movimentado no mercado de ações atingiu 14,90% no fim de junho, metade da média recorde de 30,5% registrada em 2009.

    A primeira vez em que Jake Kim investiu no mercado acionário foi em 1999. Ele adotou uma postura arrojada, com um programa de alta frequência. Mas a época foi marcada pela combinação entre o medo de pane nos computadores com a virada do milênio e uma febre de investimentos na Coreia. “Tanto o índice Kospi quanto o Kosdaq (da bolsa eletrônica, que pode ser comparada à Nasdaq), oscilavam como uma montanha-russa. Muitos pequenos investidores se apressaram para especular. Na televisão e nos jornais, só o que se via eram histórias de gente que tinha feito fortuna na bolsa”, lembra, ao relatar como ele e muitas pessoas acabaram perdendo dinheiro.

    Foi quando Kim decidiu estudar, diversificar e comprar ações visando ao longo prazo. “Percebi o quanto era ignorante com relação aos investimentos”, afirma. Foram anos de aprendizado para toda a população coreana. “Dez anos atrás, as pessoas não sabiam nada sobre investimentos. Mas, agora, posso dizer que estão mais sábias e experientes. Tanto o governo quanto empresas ajudaram no processo de educação financeira. Hoje, os coreanos estão aprendendo a aplicar em derivativos, que têm registrado um boom”, completa Kim.

    O relato de Kim já dá pistas de que nem sempre foi assim na Coreia. Uma das principais alavancas para o desenvolvimento da bolsa de valores veio da política monetária, explica Martin Lee, diretor presidente da corretora coreana Mirae Asset no Brasil. Na crise asiática de 1997, o Banco da Coreia promoveu forte elevação da taxa de juros, que chegou a superar os 30%, porque sua moeda tinha se depreciado substancialmente, diz um estudo da autoridade monetária.

    Nos anos seguintes, o BC da Coreia reduziu gradualmente a taxa de juros anual. Em setembro de 1998, cortou para 7% ao ano. Em 1999, já estava em 4,7%. A mínima de 2% ao ano foi atingida em 2009. “Na época, o custo de oportunidade dos investimentos em renda fixa diminuiu e o crescimento do mercado de ações se intensificou”, afirma Lee. De 1997 a 1998, o número de pessoas físicas na bolsa passou de 1,3 milhão para 1,9 milhão. Em 1999, atingiu 3,3 milhões. A política monetária brasileira passa somente agora pelo processo vivido pela Coreia do Sul na década de 90. A Selic iniciou este ano em 10,5% e hoje está em 8%.

    Outra razão para o fomento do mercado foi o sistema público de previdência coreano, que passou a investir cada vez mais em renda variável. Em 2007, por exemplo, as ações domésticas correspondiam a 15,1% dos recursos sob gestão do Serviço Nacional de Previdência. Esse patamar aumentou para 17,9% em 2011 e o objetivo da instituição é superar 20% em 2016.

    No ano passado, o portfólio do fundo era composto também por títulos de renda fixa (64,4%), ações listadas no exterior (5,7%), títulos de renda fixa estrangeiros (4,2%) e investimentos alternativos, como ‘venture capital’ e ‘private equity’ (7,8%).

    A questão cultural também pesa nos hábitos de investimentos. “Vejo uma diferença entre nós e os asiáticos: o conceito de herança familiar. O coreano pensa muito mais no futuro de sua família”, garante Gilmar Masiero, professor de administração da FEA-USP. Outro professor da USP, Simão Davi Silber, avalia que enquanto o brasileiro é tipicamente consumista, o coreano busca a poupança. “Ele quer ajudar os pais e garantir a melhor educação aos filhos. Ter dívidas é como cometer um pecado”, diz.

    Ele acredita ainda que o fato de o governo da Coreia prezar por um alto nível de poupança abre espaço para emissão não apenas de ações como também de debêntures por parte das companhias, o que favorece o fortalecimento do mercado.

    O fato é que a bolsa de valores cresceu junto com a economia coreana. Na década de 50, o país era “paupérrimo”, com um padrão de vida semelhante ao da África subsaariana, diz o professor de Economia Internacional da FEA-USP, Dante Aldrighi. Enquanto no Brasil já havia uma indústria, a Coreia do Sul dependia basicamente de recursos dos Estados Unidos. Hoje, o país asiático é referência em desenvolvimento econômico. Em 2011, a renda per capita coreana foi de US$ 20.870, o dobro da cifra brasileira, de US$ 10.720, de acordo com dados do Banco Mundial.

    A receita da Coreia para crescer foi a mesma que o Japão havia adotado anos antes: forte estímulo às exportações, investimento constante e relevante em educação e alto nível de poupança do governo. “Os coreanos se voltaram desde o início ao mercado externo. Caso contrário, não teriam ganho de escala. O que se vê hoje é uma completa inversão dos papéis entre Brasil e Coreia. Estamos em uma situação bastante inferior”, analisa Aldrighi.

    A Coreia conseguiu criar empresas competitivas em setores tecnologicamente dinâmicos, caso da LG e da Samsung, e em segmentos como o naval, automobilístico e siderúrgico. “Frequentemente, as empresas coreanas atuam em vários segmentos, constituindo os conglomerados conhecidos por chaebols”, explica Aldrighi. Ele enfatiza ainda que no processo de privatização de grandes empresas do país, como a Korea Telecom, a Korea Tobacco and Ginseng e a Posco, o capital foi pulverizado, o que atraiu mais investidores ao mercado.

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